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terça-feira, 24 de junho de 2014

Espaço Sagrado



Quando morava sozinha sentia falta da solidão da casa quando morava com meus pais. Agora ela está por todos os cantos. Coloco Jorge Drexler pra preencher todo o ambiente, sua música me lembra algo íntimo, doce, sutil, assim como a intimidade que tenho com a casa vazia. Nos primeiros dias que voltei pra casa pequenas arrumações me animavam, limpava a casa como quem limpa a própria alma, mas continuo a mesma. Estou cansando dessa simples rotina, que na verdade é muito complicada. Há tantos detalhes: o pó dos móveis, a poeira do chão, as manchas a umidade, a dispensa, os roupeiros, a geladeira, os banheiros, os cantos esquecidos que precisam ser limpos, a segunda gaveta da cozinha com os talheres maiores, a areia da gata, as plantas...tudo isso e as pessoas descansam na frente da televisão. Para mim todo espaço é sagrado e deve conter partes nossas em forma de energia. 
Já fiz limpeza energética na casa com palo santo (muito bom por sinal), sal amargo e confeccionei um filtro dos sonhos para sala. Na verdade tentei colocar pedaços de mim espalhado pela casa, porque me sinto deslocada, porque tenho que respeitar meu próprio espaço sagrado.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Quilômetros, horas, espaço, tempo podem caracterizar a distância, mas nada pior do que a distância dos sentimentos de quem se tem ao lado, sem extensão, no todo imperscrutável.

sábado, 7 de julho de 2012

Nunca escrevi um diário, bem já escrevi algumas coisas, mas a consistência dessas coisas não expressavam sentimentos, fatos importantes, impressões. Quando lemos um livro que gostamos, não lembramos de todos os detalhes, das frases ditas pelos personagens, mas é possível voltar naquelas páginas e encontrar o que nos tocou, o que gostaríamos de memorizar ou mesmo destacar em um pequeno pedaço de papel. Um diário seria mais ou menos a mesma coisa, talvez um pouco diferente, só que estaria escrito fragmentos, idéias, pensamentos que flutuam pelo nosso cérebro para longe, mas com o tempo estão meio perdidos com tantas responsabilidades, compromissos, outras emoções. Como iria lembrar daqui a dez anos da sensação de um abraço em meio ao som  dos trilhos do metrô refletindo distância tão literalmente quanto de forma imaterial, um adeus coincidente, perfeito com a situação; ou a expressão natural de tristeza das pessoas em um velório em que você brinca ao redor do caixão sem entender bem o que estava acontecendo, pois tudo ainda era tão novo e mundo estava tão acima; da saudade, Deus meu, que sensação, o som do vento, a tonalidade das tardes, o modo como a chuva caía, o formato do sorriso, os telefonemas, os cafés, encontrar a casa vazia, escutar a voz de alguém especial quando ainda nem havia acordado, as surpresas, convites, a maresia, cartas, cartões postais, as ruas, a solidão. Essas coisas pequenas são perpétuas. Muitas vezes tenho a sensação que tudo o que gosto, o que faz parte da minha identidade, jamais verei de novo, de forma que eu possa dar mais valor as pessoas. O vazio é tão grande, e você pensa no que fez, no que não fez, e o quanto isso irá lhe acompanhar pela vida inteira; às vezes isso me sufoca. Se estivesse conversando com um analista eu diria que o meu maior medo é da perda e da consciência dela, porque a partir do momento que eu pensasse que eu não poderia fazer absolutamente mais nada, isso iria me arruinar de tal forma como uma casa destruída; aqueles blocos sólidos em total desarmonia em que você olha e só pensa em tirar aquela coisa imperfeita, confusa dali. Vivo em um momento de desconstrução, talvez meu maior medo não seja da morte e toda essa coisa seja uma forma de exteriorizar as impressões que possuo; estou submersa em muitas possibilidades que se misturam a liberdade, vícios de emoções e pensamentos, desde pessimismo, esperança, desatenção, desejo, desapontamento, falta de interesse, devaneios, cansaço, cansaço, cansaço, cansaço. Há tantas coisas que me motivam a viver e coisas que em  momentos desatentos me fazem mal, e isso é tão forte quanto as coisas que podem lhe trazer mais significados. E esse é o problema, procuro significado desde o pão que compro até na escolha do meu sabonete, como se alguém estivesse interessado no modo em como eu não coloco açúcar no café, ou quando eu me sinto absurdamente feliz quando um livro está escritos coisas que eu sinto, mas daquela forma estranha, difícil de entender a primeira lida, mas está lá, sensível, pontual, incrível, temos em nossas almas a mesma impressão, ou enquanto escuto Nina Simone desarmonicamente com tudo isso.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

As pálidas paredes do coração fechado

A procurar por palavras, frases, versos soltos, sempre acabo me deparando com o chileno Pablo Neruda. Pouco sei da sua carreira literária, da sua bibliografia. De tempos em tempos acabo lendo algumas de suas poesias. A impressão fica forte, cada palavra, cada sensação. Sei da sua preocupação política e o quanto isso influenciou sua obra. Mas são nos sonetos de amor de Neruda que encontrei em uma biblioteca esquecida(em que as obras de grande autores servem apenas para preencher as prateleiras), que me deliciei com seus versos em um dia nublado e frio de uma segunda-feira morna. Do sutil ao caos resumiria esse dia. Posso não estar sendo fiel a toda complexidade da obra do autor, muitas vezes só procuro sentir o que estou lendo ou o que meu coração consegue transferir para cada dimensão do meu corpo, que é muito mais que matéria. "Confesso que vivi" foi o primeiro livro que tive contato com a escrita de Neruda, lembro que a cada palavra me sentia nos bosques chilenos, e essa impressão permanece até hoje, como se regredisse para uma época que não vivi. Essa é a parte interessante do contato que tenho do autor, suas metáforas do mundo, suas vivências, seus versos reticentes, deixam grande impressões do mundo. Redescobrir isso no meio do caos, do cotidiano, do comum, deixa a existência um pouco mais leve, um pouco mais bonita.

“Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros.Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre – como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado.Minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.”

Pablo Neruda