quarta-feira, 23 de outubro de 2013




"(...) convencida, como eu também o estava, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel com linhas para escrever ou aquelas que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia."

(O jogo da Amarelinha, Julio Cortázar: Capítulo I. 6 ed. Civilização Brasileira)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

"Há esperas que nunca se aprendem. Mesmo sob o dilúvio, continuaremos aguardando a chuva. É de outra água que esperamos."

(Mia Couto in: Venenos de Deus, remédios do Diabo. Companhia das Letras, 2008. p.140)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013


Até então tudo havia sido um vago anúncio, Alana na música, Alana frente a Rembrandt. Mas agora minha esperança começava a cumprir-se quase insuportavelmente; desde nossa chegada Alana se havia entregado às pinturas com uma atroz inocência de camaleão, passando de um estado a outro sem saber que um espectador escondido espreitava sua atitude, a inclinação de sua cabeça, o movimento de suas mãos ou seus lábios, o cromatismo interior que lhe percorria até mostrá-la outra, ali onde a outra era sempre Alana somando-se a Alana, as cartas aglomerando-se até completar o baralho. A seu lado, avançando pouco a pouco ao longo dos muros da galeria, eu a ia vendo entregar-se a cada pintura, meus olhos multiplicavam um triângulo fulminante que se estendia dela ao quadro e do quadro a mim mesmo para voltar a ela e empreender a mudança, a auréola diferente que a envolvia um momento para ceder depois a uma aura nova, a uma tonalidade que a expunha à verdadeira, à última nudez. Impossível prever até onde se repetiria essa osmose, quantas Alanas me levariam por fim à síntese da qual sairíamos os dois cheios, ela sem sabê-lo e acendendo um novo cigarro antes de pedir-me que a levasse para tomar um trago, eu sabendo que minha longa busca havia chegado a um porto e que meu amor abarcaria a partir de agora o visível e o invisível, aceitaria o limpo olhar de Alana sem incertezas acerca de portas fechadas, de paisagens proibidas.

Orientación de los Gatos - Júlio Cortázar

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ando meio desligada dos sinais que a vida sutilmente costuma dar, mas ontem mesmo distraída vi você num lapso de segundo, apesar de muito rápido tantas coisas me vieram à mente.

E faz tanto tempo que eu me comportei como uma idiota. Homens, minha capacidade de entendê-los é tão limitada, sou disléxica nesse ramo.

E não, não foi um estado agudo de felicidade como provavelmente pensaria Clarice Lispector. Foi como um remédio amargo que você precisa tomar pra cura, mesmo depois que você não sente mais o gosto, a sensação ruim fica lá pra sempre.


Essa música não é pra você.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Pandora observa em seu aquário as coisas flutuando.

A Pandora de ontem não é mais Pandora de hoje.  Mas há algo que sempre fica e qualquer coisa pode fazer vir à tona. Uma música, uma sensação, uma pessoa, uma situação, um livro, uma frase. E...desespero!

Mas tô bem. Final de ano chegando, estou tentando manter um ritmo novo e ele se chama: gastar meu tempo na internet. Não consigo mais ler nada interessante, nem assistir mais os filmes europeus que tanto gosto.

O que será que se passa de um período melancólico para outro?

Dançar flamenco, aprender inglês e espanhol não estão me empolgando mais.

Nada me empolga mais. Acho que tô cansada só isso. Espero que seja só isso.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Os pensamentos que me visitam nas ruas movimentadas


Rostos.
Bilhões de rostos na face da terra.
Dizem que cada um é diferente
dos que já se foram e dos que virão um dia.
Mas a Natureza – quem é que a entende? –
cansada do trabalho que nunca acaba
talvez repita suas ideias antigas
e ponha-nos rostos
já usados outrora.

Pode ser Arquimedes de jeans que passa ao seu lado,
a czarina Catarina com roupa de brechó,
um dos faraós de pasta e óculos.

A viúva de um sapateiro descalço
vinda de uma Varsóvia pequenina ainda,
um mestre da gruta de Altamira
levando as netas para o zoológico,
um Vândalo cabeludo a caminho do museu
para se deliciar com os mestres do passado.

Os que tombaram há duzentos séculos,
há cinco séculos,
há meio século.

Alguém levado em carruagem dourada,
alguém levado em vagão de extermínio.
Montezuma, Confúcio, Nabucodonosor,
suas babás, suas lavadeiras e Semíramis
que só fala inglês.

Bilhões de rostos na face da terra.
Meu, seu, de quem –
você nunca saberá. Talvez a Natureza tenha que ludibriar
para dar conta dos prazos e da demanda
e pesque até o que estava submerso
no espelho da deslembrança.

Wisława Szymborska